terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Um pontapé mal calculado!

...que ecoou, lancinante, pela casa de banho, de tal ordem que o Sr. Alfredo, abrindo sorrateiro a porta da rua, meteu a cabeça e disse "Passa-se alguma coisa?" e passado dois segundos já ele se tinha passado para o interior do hall, para pavor da Dona da Casa que entretanto com o grito e o susto tinha largado a toalha protectora das mazelas que a velhice lhe cobrava ano após ano, e ainda mais assustada ficou com os fragmentos da sua triste imagem que o espelho lhe devolvia por entre aquelas letras juntas em língua estrangeira. "Mas que raio de história vem a ser esta?" pensa ela amarfanhando a toalha em seu redor quando sente os passos do Sr. Alfredo, e o tic tic enfrenesiado da Luci que não a larga por um instante. "E tu cadela estúpida, que não serves para nada, nem para guardar uma casa de banho!" e a Dona de Casa ergue uma perna ainda ágil com uma pantufa a enfeitar-lhe a ponta danada para acertar na Luci que electrizada pelos acontecimentos mais parece um boneco saltitão. Mas a Dona da Casa calculou mal a força, ou fintou em demasia, ou mais precisamente esqueceu-se que o Sabonete Punhal já tinha estado no chão a lambuzar de espuma os ladrilhos da casa de banho e a pantufa resvalou e com ela a perna e toda a Dona da Casa que se estatelou de costas e só teve mesmo o que restava do totiço para amortecer a queda.
"Passa-se alguma coisa?" tornou a perguntar o Sr. Alfredo, desta vez com a cara junto à porta da casa de banho, que tinha ficado entreaberta, e que se tornava um alvo de tal forma apetecível que ele nem tinha forma de disfarçar. " Nada, nada..." murmurou a Dona da Casa, puxando a custo a toalha para se tapar mas ainda deitada de costas, sem se mexer e a pensar como é que ia sair daquela situação; mas isso foram só uns segundos antes de desmaiar e de ver umas luzes estranhas que vinham da caixa de sabonetes...

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