sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Na casa-de-banho

"We know just what you're about to do" foram as palavras que a custo, o srº. Alfredo conseguiu ler, escritas a pasta de dentes, no espelho da casa de banho.
Alçou a perna para passar por cima da Dona de Casa desmaiada, ainda deu uma sapatada forte na Luci e aproximou-se com cuidado do lavatório para examinar palavra a palavra. "Aqui há mistério!" disse baixinho e logo em seguida o seu olhar desviou-se para a caixa de sabonetes donde saíam umas luzes faíscantes.
Aproximou-se, sempre com cuidado, chegou-lhe perto com o nariz, os dedos da mão direita a enrolar a ponta do bigode e logo de seguida fugiu nauseado"Que raio de cheiro, estes sabonetes! Onde é que a senhora arranjou isto? Ainda por cima são luminosos! Os chineses inventam tudo...que fedor!" e o Srº Alfredo lembrou-se então da Dona da Casa que continuava estendida no chão, desmaiada, quase nua, com a irritante Luci aos pulos à sua volta.
Agachou-se junto da Senhora e não viu o Azul deitar um raio fulminante que atingiu em cheio o azuleijo, fazendo-lhe um buraco bem fundo, que ficava atrás do sr. Alfredo que entretanto já estava a molhar uma toalha e refrescar a Senhora na livída e sulcada face que em repouso até parecia em paz.
O sr. Alfredo molhava a testa, as mãças dos rosto, dava palmadinhas que pareciam festinhas e a Dona da Casa começou a abrir os olhos e a perceber que não estava sozinha " Mas onde é que estou? Como é que está aqui? Não pode ser? Saia daqui... leve-me daqui... ai.. ai.. Meu Deus! ai.. ai...! " e a Dona da Casa gaguejando palavras sem nexo, começou a rastejar até à porta da casa de banho em completo desespero, esquecendo qualquer toalha que lhe tapasse o corpo...."Espere!" disse Alfredo, mas a palavra foi abafada pelo estrondo enorme que se ouviu atrás dele....

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Um pontapé mal calculado!

...que ecoou, lancinante, pela casa de banho, de tal ordem que o Sr. Alfredo, abrindo sorrateiro a porta da rua, meteu a cabeça e disse "Passa-se alguma coisa?" e passado dois segundos já ele se tinha passado para o interior do hall, para pavor da Dona da Casa que entretanto com o grito e o susto tinha largado a toalha protectora das mazelas que a velhice lhe cobrava ano após ano, e ainda mais assustada ficou com os fragmentos da sua triste imagem que o espelho lhe devolvia por entre aquelas letras juntas em língua estrangeira. "Mas que raio de história vem a ser esta?" pensa ela amarfanhando a toalha em seu redor quando sente os passos do Sr. Alfredo, e o tic tic enfrenesiado da Luci que não a larga por um instante. "E tu cadela estúpida, que não serves para nada, nem para guardar uma casa de banho!" e a Dona de Casa ergue uma perna ainda ágil com uma pantufa a enfeitar-lhe a ponta danada para acertar na Luci que electrizada pelos acontecimentos mais parece um boneco saltitão. Mas a Dona da Casa calculou mal a força, ou fintou em demasia, ou mais precisamente esqueceu-se que o Sabonete Punhal já tinha estado no chão a lambuzar de espuma os ladrilhos da casa de banho e a pantufa resvalou e com ela a perna e toda a Dona da Casa que se estatelou de costas e só teve mesmo o que restava do totiço para amortecer a queda.
"Passa-se alguma coisa?" tornou a perguntar o Sr. Alfredo, desta vez com a cara junto à porta da casa de banho, que tinha ficado entreaberta, e que se tornava um alvo de tal forma apetecível que ele nem tinha forma de disfarçar. " Nada, nada..." murmurou a Dona da Casa, puxando a custo a toalha para se tapar mas ainda deitada de costas, sem se mexer e a pensar como é que ia sair daquela situação; mas isso foram só uns segundos antes de desmaiar e de ver umas luzes estranhas que vinham da caixa de sabonetes...

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

... Por momentos, a frase ecoou pelos oito cantos da espelhada casa de banho, dissipando-se, por fim, para o corredor. Lucy arregala os olhos e arrebita as orelhas mas uma festa na cabeça, dada pela Dona da Casa, fá-la esquecer-se. O sabonetinho Azul respira fundo. Olha para cima e vê a Pasta de Dentes dobrar-se do copo. Azul suspira aliviado e a Pasta de Dentes começa a contorcer-se furiosamente. Ela sabe exactamente o que fazer em reacção àquela frase e começa a fazê-lo séria e friamente, sem levantar qualquer questão. Automaticamente, abre a tampa, posiciona a mira e, com disparos rápidos, atira jactos de pasta azul e branca em várias direcções. Lucy desperta mais uma vez e fica atenta. A Dona da Casa inspira fundo, monta um sorriso e abre a porta da rua, o suficiente só para espreitar com a cabeça de fora:
- Sr. Alfredo! Como vai?!!! Espere só um momento enquanto eu acabo de me arranjar! Tchau-tchau!!! - e com isto fecha a porta antes do Sr. Alfredo ter tempo de ripostar.
A Dona da Casa ajeita a pequena toalha e apressa-se até à casa de banho. Lucy segue-a mas a medo. A Dona da Casa detém-se. Não consegue ficar indiferente ao Sabonete Punhal, deitado a reluzir, à entrada da casa de banho. "Que disparate!". Pega no Sabonete Punhal e dá meia-volta na direcção da amalgama de aromas. As suas mãos perdem a força e o Punhal cai novamente, agora no chão gelado da casa de banho. Dona da Casa não quer crer no que vê. No espelho da sua casa de banho, escrito a pasta de dentes, com uma bela caligrafia e letras bem grandes, consegue ler-se: "We know just what you're about to do". Dona da Casa solta um belo de um grito...

domingo, 4 de fevereiro de 2007

...moldando a sua voz de modo a que se ouvisse lá, no alto, no armário das pastas, o Azul gritou: " amor é fogo que arde sem se ver, para lá da ocidental praia Lusitana, por mares nunca dantes navegados, tão grande era de membros, que bem posso certificar-te que este ero o segundo de Rodes estranhíssimo Colosso..."

sábado, 3 de fevereiro de 2007

...O seu peito ofegava, as mãos tilintavam como se 2 graus estivessem naquel hall, à porta da Dona da Casa. Deixou de ouvir os passos da senhora, aproximou-se da porta com o ouvido, mas apenas escutava o seu coração e as frases que tinha para lhe dizer, vezes sem conta, ordem sem nexo, sons sem tom. Atrás da porta, a Dona da Casa ajeita a pequena toalha que lhe deixa ver a curva da perna e as costas, sardentas de outro tempo. "Que homem este..." Estranhou o silêncio, continuou ali parada. Apenas ao olfacto lhe chegava algum sinal, o cheiro mesquelado que vinha da casa de banho. "Aqueles sabonetes!!"
Na caixa demasiado pequena, o azul comanda as operações. Olha à sua volta e quase todos os outros estão pálidos e cansados, em choque saboneteiro. O Azul molda-se para ganhar altura e chama a pasta de dentes, a 10 azulejos de distância...

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

... Era mais forte do que ela! Luci não conseguia deixar de entrar em pânico sempre que alguém se preparava para tocar à campainha. "Já vai!", gritou a Dona da Casa e em seguida a campainha tocou. O sr. Alfredo sempre achou muito estranho o facto da Dona da Casa lhe responder instantes antes de ele a chamar, mas nesse dia em particular, outras preocupações roubavam-lhe as estranhezas. Não tinha tempo a perder, tinha algo de muito urgente para lhe falar. A Dona da Casa, enrolada numa pequena toalha, corre pelo corredor até ao hall de entrada e detém-se atrás da porta...

...uma caixa demasiado pequena...


Os sabonetes espumavam de medo. A caixa começava a tornar-se pequena para tal asfixa. A velha senhora avançava lentamente, de Sabonete Punhal em punho. O cheiro a lavanda misturava-se com o de alecrim e o cheiro a rosas, os sabonetes defenhavam. "Que dia para ficarmos sem o creme..." - tremiam. A rugas da velha senhora ainda mais se indagarravam com o súbito aroma que enchera a divisão, que seria aquilo, que fragâncias indefiniveis por ali levitavam? O espaço na caixa dimunia a olhos vistos, o sabonete verde agarrava-se ao corajoso azul que se misturava na espuma do rosinha. Nesse instante, do fundo da casa, a cadela Luci correu em direcção à dona que só via de costas, o cheiro fê-la acordar do sono da tarde e correr. "Que coisa?! Que vida anda aí?" A velha senhora, concentrada na aproximação, não deu importância a tal corrida. Ali estava, pronta para se chegar à caixa dos, agora, espumosos sabonetes. "Não nos vamos pelo cano abaixo, mas perdomo-nos burrados! Não pode ser!", gritava o azul. "Coragem, companheiros!". Ninguém o ouvia. Já todos fechavam os olhos a imaginar os passeios nas rugas e nas banhas da velha senhora. Luci, na correria que trazia do corredor, entrou pela fresta que via da porta e bateu na porta com o focinho, com uma pancada que a fez perder o olfacto por segundos. Ganiu, a velha senhora deu um salto e largou o sabonete punhal, "Slpach!", nos ladrilhos cor-de-laranja e amarelos.
"LLLLuuuucccciiii, sua doida..."